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8 de mar. de 2014

Abandonados Pela Disney

Alguns de vocês já ouviram falar que a Disney é responsável por, pelo menos, uma cidade fantasma de verdade. 

A Disney construiu o resort da Ilha do Tesouro nas Bahamas. Não começou como uma cidade fantasma! Os cruzeiros da Disney realmente paravam no resort e deixavam turistas lá pra que relaxassem em luxo.

Isso é FATO. Pode procurar. 

A Disney gastou 30.000.000,000 de pratas com o lugar. Sim. Trinta milhões de dólares

E aí deixaram pra lá.

Puseram a culpa nas águas rasas (rasas demais pros navios operarem com segurança) e até nos funcionários já que, como eram nativos de lá, eram preguiçosos demais pra trabalharem num horário decente.

É aí que os fatos acabam. Não foi por causa da areia, muito menos por que "estrangeiros são preguiçosos". Ambas foram desculpas convenientes. Não, sinceramente, não acredito que essas foram os verdadeiros motivos. Por que não caio na história oficial? Por causa do Palácio Mogli.




Perto da costa da Ilha Esmeralda, na Carolina do Norte, a Disney começara a construir um Palácio Mogli no fim dos anos 90. A ideia era um resort baseado na selva e, no meio da coisa toda, isso mesmo que você pensou, um enorme PALÁCIO. 

Se você não está familiarizado com a personagem Mogli, tente lembrar da história do Menino Lobo. Se nunca leu, deve conhecer um desenho famoso da Disney, de décadas atrás, com o mesmo nome. 

Mogli é uma criança abandonada na floresta, simplesmente criada por animais ao mesmo tempo que ameaçada/perseguida por eles. O Palácio Mogli foi uma manobra polêmica desde o início. A Disney comprou vários terrenos caríssimos pro projeto e teve realmente um escândalo envolvendo algumas dessas aquisições. O governo local tomou posse "urgente" de várias casas e as vendeu pra Disney. Chegou ao ponto de casas recém construídas serem condenadas sem nenhuma explicação. 

Os terrenos tomados pelas autoridades serviriam pra construção de uma estrada fictícia. Tendo plena consciência do que estava havendo, as pessoas começaram a chamá-la de Rodovia Mickey Mouse. 

Aí vieram os rascunhos da arte conceitual. Um grupo de almofadinhas da corporação fez uma reunião na cidade. Pretendiam mostrar pra todo mundo o quão lucrativo o projeto seria pra todos. Quando mostraram a arte conceitual, tinha um palácio tribal gigante... cercado de SELVA... cheio de homens e mulheres de tanguinha e apetrechos indígenas... bom, é justo falar que todo mundo surtou. Estavam falando de tribal, selva e tanguinhas no centro de um lugar no Sul dos Estados Unidos que não só era relativamente rico como também xenofóbico. Era uma mistura difícil de engolir praquela época. Um dos presentes tentou espalhar sua revolta, mas foi rapidamente imobilizado pelos seguranças depois de quebrar um dos quadros daapresentação com o joelho. 

A Disney pegou aquele bairro e quebrou todo também. Casas foram demolidas, terra foi batida e a população não pôde fazer ou falar porcaria nenhuma. A TV e os jornais foram contra o resort no início, mas alguma conexão insana entra o pessoal da Disney e as mídias locais se fez presente e as opiniões mudaram na hora. 

Foi isso aí, Ilha do Tesouro, Bahamas. A Disney enfiou milhões lá e ficou por isso mesmo. Aconteceu de novo o Palácio Mogli. 

A construção foi acabada. Visitantes se hospedavam lá. Os arredores encheram de trânsito e de mais todas as perturbações associadas a um fluxo intenso de turistas irritados e perdidos.

E então acabou. 

A Disney fechou o resort e ninguém teve nem ideia do que diabos acontecera. Mas todo mundo ficou bem feliz com isso. A perda da Disney foi uma coisa hilária e maravilhosa pra um grande grupo de pessoas que não quiseram aquilo em primeiro lugar.

Sinceramente nunca mais dei bola pra história desde o fechamento do lugar, mais de uma década atrás. Moro a umas quatro horas da Ilha Esmeralda e só ouvi relatos, nunca vivi o que de fato aconteceu. 

Até que li um artigo de um cara que explorou a Ilha do Tesouro e montou um blog inteiro com todo tipo de merda que achou lá. Coisas... deixadas pra trás. Quebradas, destruídas e arruinadas pelos empregados revoltados por terem perdido o emprego. 

Cacete, provavelmente até os moradores tinham dedo naquela destruição toda. As pessoas ficaram tão putas com a Ilha do Tesouro quanto a galera aqui ficou com o Palácio Mogli. Aliás, os boatos eram de que a Disney liberou todo o "estoque" do aquário nas águas locais quando fechou o resort, incluindo tubarões.

Bom, quem não gostaria de se promover com essa história?

O que quero falar é que esse blog sobre a Ilha do Tesouro me fez pensar. Apesar de terem passado muitos anos desde o fechamento, pensei que talvez fosse legal fazer algum tipo de "trilha urbana" no Palácio Mogli. Tirar umas fotos, escrever sobre, provavelmente ver se podia levar algo pra casa de lembrança. 

Não vou dizer que fui pra lá na hora, por que, na verdade, passou um ano desde que descobri o artigo da Ilha do Tesouro até que eu fosse lá mesmo. 

Durante esse ano, pesquisei o Palácio e o resort... Melhor, tentei.

Naturalmente, nenhum site ou fonte oficial relacionada a Disney fazia sequer menção ao Palácio. Limparam bem os rastros.

Mais estranho ainda foi o fato de que aparentemente ninguém antes de mim pensou em escrever sobre o Palácio ou coisa assim. Nenhuma das emissoras de TV e jornal locais sabiam dizer uma palavra sobre, o que até era o esperado já que dançaram conforme a música da Disney. Não sairiam por aí simplesmente comentando a vergonha dela, saca?

Por fim, não conseguia nem mesmo imaginar onde era o lugar. Tudo o que tinha de guia era um mapa velho pra cacete que chegara pelo correio no fim dos anos 90. Um item promocional enviado àqueles que haviam visitado o Disney World recentemente e, como tinha passado lá no fim dos anos 80, era um desses visitantes "recentes".

Não pensei realmente em me apoiar nele. Tinha sido enfiado dentro da minha gaveta com todos os livros e quadrinhos da minha infância. Só lembrei dele depois de meses pesquisando e, mesmo assim, precisei de semanas até achá-lo na caixa que meus pais jogaram minhas coisas. 

Mas ACHEI o lugar. Os moradores não ajudaram em nada, já que a maioria era de gente que acabara de se mudar... ou de gente velha que simplesmente grunhia pra mim e fazia gestos mal educados assim que eu começava com "Onde posso achar o Palá-".

A viagem seguiu por uma longa estrada cheia de plantas. Espécimes tropicais tinham crescido como pragas e superpopularam a área, disputando com as espécimes nativas que realmente ERAM daquele lugar e tentavam retomar posse da terra.

Fiquei boquiaberto quando cheguei ao portão de entrada do resort. Portas enormes, de madeira de aparência monolítica, cujos suportes pareciam arrancados diretamente de sequóias gigantes. 

Grudado no portão havia um pedaço de alumínio, um quadrado, com letras pintadas a tinta preta.

"ABANDONADO PELA DISNEY". Claramente uma obra de arte de algum morador ou ex-empregado que tentava protestar. 

Os portões estavam entreabertos o suficiente pra passar sem o carro. Segui em frente com uma câmera digital e o mapa, que continha desenhos do layout do resort.

O interior era tão cheio de plantas quanto o exterior. Os coqueiros, sem poda e cuidados, foram engolidos por pilhas formadas por seus próprios frutos. As bananeiras tinham se tornado, também, uma mistura de fedor e casulos de insetos. Havia um tipo disputa eterna entre a ordem e o caos, exemplificada por fileiras de uma espécie de flores, cuidadosamente plantadas nos lugares certos, que jaziam intercaladas por ervas daninhas grotescas e cogumelos escuros e mal cheirosos. 

Tudo o que sobrara do lado de fora se resumia a madeira quebrada e podre e outros materiais não identificáveis. O que parecia ter sido um outdoor ou um letreiro de bar era agora somente uma pilha de detritos, destruídos por vândalos e maltratado pelo clima.

A coisa mais interessantes no chão era uma estátua do Baloo, o amigo urso de O Menino Lobo, posta em uma espécie de cercado na frente do prédio principal. O personagem estava congelado num eterno cumprimento pra ninguém, encarando o vazio com um sorriso idiota e cheio de dentes, e pedaços inteiros de seu "pelo" estavam cobertos de cocô de passarinho. Ervas daninhas subiam por sua plataforma. 

Segui pro prédio principal - o PALÁCIO - e vi que a parte de fora, nas partes em que a pintura original não tinha caído ou apodrecido, estava coberta de pichações. As portas da frente não estavam abertas, tinham sido arrancadas das dobradiças e levadas de lá. 

Acima das portas, ou melhor, do buraco onde elas estiveram um dia, alguém pintou de novo "ABANDONADO PELA DISNEY". 

Queria poder falar que encontrei várias coisas maneiras dentro do Palácio. Estátuas esquecidas, registradoras abandonadas ou uma sociedade secreta e autossustentável de mendigos. 

O interior do prédio estava tão consumido, tão vazio, que cheguei a pensar que roubaram até o reboco das paredes. Qualquer coisa que fosse grande demais pra levar... Balcões, mesas, grandes árvores falsas... Tudo jazia misturado nessa câmara de eco que fazia cada passo parecer o ta-ta-ta de uma metralhadora lerda. 

Chequei o piso e segui pra onde parecia interessante.

A cozinha estava daquele jeito... Uma cozinha industrial, cheia de equipamentos e espaço, construída a partir de um orçamento generoso. Superfícies de vidro foram quebradas, portas derrubadas das dobradiças e superfícies de metal amassadas por chutes. O lugar todo cheirava a mijo velho.

O imenso freezer, nem um pouco frio, tinha fileiras e fileiras de prateleiras vazias. Ganchos, provavelmente de carne, pendiam do teto. Fiquei lá dentro um pouco e reparei que eles se moviam. 

Cada gancho balançava numa direção aleatória, mas seus movimentos eram tão discretos e lentos que era quase impossível notar. Imaginei que fosse resultado dos meus passos e, então, parei cada um com a minha mão, soltando cuidadosamente depois. Dentro de segundos, voltaram a mexem de novo.

Os banheiros estavam praticamente do mesmo jeito. Assim como o resort da Ilha do Tesouro, alguém tinha, metodicamente, quebrado cada vaso de porcelana com cocos e outros objetos. Tinha uns dois centímetros de água parada no chão, rançosa e fedorenta, por isso não fiquei muito tempo lá. 

O mais estranhos é que os vasos e pias (e bidês dos banheiros femininos - sim, fui lá também) vazavam, pingavam e desperdiçavam água. Me pareceu que deviam ter cortado a água há muito, MUITO tempo. Havia bastante quartos no resort, mas obviamente eu não tinha tempo de investigar todos eles. Os poucos que vi estavam igualmente destruídos e não esperei achar nada lá. Imaginei que houvesse um rádio ou uma televisão em algum deles, por que realmente pensei ter ouvido uma conversa baixinho.

Apesar de parecer um sussurro, provavelmente minha própria expiração ecoando no silêncio ou água corrente me pregando peças na mente, as palavras pareciam:

-Não acreditei...

-(resposta curta)

-Não sabia disso... Não sabia...

-Seu pai te disse.

-(resposta curta ou possível choro)

Tá, tá... Parece ridículo. Só estou contando o que passei, por que pensei que pudesse ter alguém correndo naquele quarto - pior ainda, vagabundos que se escondiam ali e provavelmente me esfaqueariam. 

Ao olhar pro lado de fora, vi algo interessante no pátio que não tinha percebido da primeira vez.

Uma coisa que me daria pelo menos o QUÊ mostrar depois de tanto esforço, nem que fosse só uma foto.

Havia uma estátua perfeita de uma píton, de uns dois metros, toda aconchegada tomando banho de sol num pedestal bem no meio da área. Tava quase na hora do sol se pôr e a luz caía sobre aquilo de um jeito PERFEITO pra uma foto. 

Cheguei perto da píton e tirei a foto. Fiquei na ponta dos pés e tirei outra. Me aproximei pra pegar detalhes de seu rosto.

Lenta e casualmente, a píton levantou a cabeça, me olhou no fundo dos olhos, se virou e rastejou pra fora do pedestal, seguiu pela grama e sumiu entre as árvores. Todos os centímetros de seus dois metros e meio. A cabeça sumira tempos antes do rabo descer do pedestal. 

A Disney soltara todos os seus animais exóticos por aí. No meu mapa, eu estava na casa dos répteis. Devia saber. Li sobre os tubarões da Ilha do Tesouro, DEVIA saber que eles fizeram isso. 

Eu estava apavorado e completamente estupefato. Minha boca permaneceu aberta por um longo tempo antes de eu me tocar e voltar a terra. Pisquei algumas vezes e me distanciei de onde a cobra estivera, em direção ao Palácio. 

Mesmo ela tendo ido embora, decidi não arriscar mais e volte pra dentro do prédio. Demorou algumas baforidas e uns tapas na minha fuça pra eu sair do transe. 

Procurei algum lugar onde pudesse sentar por que minhas pernas pareciam gelatina. Claro, não havia NENHUM lugar pra sentar, a não ser que eu me contentasse com vidro quebrado e tapete de folha morta ou me apoiar em algum balcão questionável. 

Tinha visto uma escada perto do lobby e decidi voltar pra me sentar até que me sentisse melhor. A escada estava longe o suficiente da frente do prédio pra estar relativamente limpa, à exceção de uma crosta de poeira. Tirei uma placa de metal da parede, também pintada com o bordão ABANDONADO PELA DISNEY, com o qual já me acostumava. Pus a placa na escada pra que pudesse sentar sem me sujar tanto. 

A escadaria seguia pra baixo. Improvisando uma lanterna com o flash da câmera, pude ver que os degraus davam num portão de metal com barras. Uma placa na porta - dessa vez uma placa de verdade - lia "MASCOTES APENAS - OBRIGADO!".

Isso me deixou animado por dois motivos. Primeiro, uma área só pra mascotes com certeza tinha coisa interessante naquela época... Segundo, as barras da porta ainda estavam lá. Ninguém se aventurara lá embaixo. Nem os vândalos, nem os ladrões, ninguém.

Era o úncio lugar que eu podia realmente "explorar" e, quem sabe, achar coisa interessante pra fotografar ou roubar na cara de pau. Vim pro Palácio num acordo comigo mesmo, de que não seria ruim pegar o que eu quisesse por que - né - "abandonado". 

Não deu muito trabalho pra abrir a fechadura. Tá, na verdade, minto. Não levou muito tempo pra arrancar a parte de metal por onde as barras da porta estavam presas. O tempo e o abandono fizeram a maior parte do trabalho. Pude dobrar a placa de metal o suficiente pra arrancar os pregos da parede e entrar - coisa que ninguém antes pensou, ou conseguiu, tempos atrás. 

A área reservada pra Mascotes era assustadora de verdade, e uma mudança bem-vinda do resto do prédio. Só pra constar, esporadicamente, algumas lâmpadas ainda acendia, piscando e desligando aleatoriamente. Além do mais, nada fora roubado ou quebrado, mesmo sofrendo os efeitos do tempo e da falta de manutenção. 

As mesas tinham cadernos e canetas, e havia relógios... Mesmo um lugar pra bater ponto na parede, completo com as fichas dos trabalhadores. Cadeiras estavam espalhadas e havia um espaço com uma televisão velha e cheia de estática e comida e bebida estragadas nos balcões. 

Parecia um filme pós-apocalíptico, em que tudo é deixado pra trás na hora da evacuação.

Enquanto caminhava por entre os corredores, que pareciam um labirinto, a paisagem ficou cada vez mais interessante. Me embrenhando mais fundo, mesas e cadeiras foram jogadas no chão, papéis espalhados e quase fundidos ao chão úmido, e um carpete que já começava a absorver a podridão da madeira roxa do piso. 

Tava tudo meio "derretido". O que eu tocava se desfazia, mesmo se o toque tivesse sido dos mais leves, e as peças de roupa das araras dentro de um dos quartinhos simplesmente se desfez numa maçaroca úmida quando encostei. 

O que me incomodava mesmo era a luz, cada vez mais esparsa e fraca à medida que seguia mais fundo naquele espaço úmido e sufocante do Palácio. 

Eventualmente, cheguei a uma porta listrada de preto e amarelo com as palavras "PREP DOS PERSONAGENS" desenhada nela.

A porta não abriu de primeira. Imaginei que fosse onde as fantasias estavam guardadas e eu realmente precisava de uma foto dessa visão suja e retorcida. Mas por mais que eu tentasse, a porta não abria. 

Quer dizer, até eu desistir e começar a ir embora. Foi quando ouvi um barulho e a porta abriu, lentamente. 

Por dentro, o quarto estava completamente escuro. Completamente. Usei o flah pra tentar achar um interruptor na parede, mas não havia nada. 

Enquanto procurava, fui interrompido por um barulho de eletricidade. Fileiras de luzes acima de mim simplesmente acenderam, algumas piscando e falhando como as outras do início. 

Precisei de um segundo pra ajustar os olhos, parecia que a luz iria ficar mais e mais brilhante até explodir os bulbos... mas justamente quando pensei que chegaria nesse ponto, as luzes enfraqueceram e estabilizaram. 

O quarto era exatamente o que eu pensei. Várias fantasias da Disney penduradas nas paredes, arrumadas pra parecerem cadáveres de algum desenho animado esqusito. 

Tinha uma arara inteira só de tanguinhas e vestes "nativas" ao fundo. O que achei esquisito, e quis fotografar na hora, era uma fantasia de Mickey Mouse no centro da sala. Ao contrário das outras, estava jogada de costas, como a vítima de um assassinato. O pelo da fantasia estava podre e se desmanchava, formando falhas. Mais estranho ainda, porém, era a cor da fantasia. Era como um negativo do Mickey de verdade. Preto onde devia ser branco e branco onde devia ser preto. O resto, normalmente, vermelho, era azul claro. 

A visão era perturbadora o suficiente pra me fazer deixar aquela foto pro final. 

Fotografei as fantasias nas paredes. De cima, debaixo, de lado, mostrando uma arara inteira de desenhos animados estáticos e putrefatos, alguns sem os olhos de plástico.

Decidi montar uma foto. Uma das cabeças decapitadas das fantasias. Agarrei uma fantasia de Pato Donald e, cuidadosamente pra que não desmontasse, retirei a cabeça. Enquanto eu encarava aquela cabeça olhuda, um barulho alto me fez pular de medo. 

Olhei pros meus pés, e entre eles havia um crânio humano. Caíra da cabeça do mascote e se desmanchou em mil pedacinhos; só uma cara vazia e um maxilar sobraram, olhando de volta pra mim. Deixei a cabeça do Donald cair na hora, como vocês fariam, e corri para a porta. Na saída pro corredor, olhei pra trás pro crânio.

Eu precisava de uma foto, saca?PRECISAVA, por inúmeras razões que talvez pareçam bobas, mas não são se você pensar bem.

Precisava de prova do ocorrido, principalmente por que a Disney queria encobrir isso. Sem dúvida, desde o começo, mesmo que isso fosse só vista grossa das feias, a Disney era RESPONSÁVEL. 

Foi quando o Mickey, o negativo, o oposto do Mickey, no meio do chão, começou a se levantar. 

Primeiro sentou, depois se pôs de pé... a fantasia... ou quem estivesse lá dentro... parou no centro da sala, o rosto me encarando diretamente enquanto eu repetia "não"...

Com mãos trêmulas, o coração batendo contra o peito, e pernas de gelatina, consegui levantar a câmera e mirar a criatura-negativo que agora me encarava em silêncio. 

A tela da câmera, contra a luz, mostrava só pixels no formato da coisa. Era a silhueta perfeita da fantasia do Mickey. A câmera, se movendo nas minhas mãos instáveis, acompanhava o contorno do Mickey enquanto ele se mexia. Aí a câmera desligou. Ficou quieta, a tela apagada...quebrada...

Voltei a encarar a fantasia do Mickey.

-Ei.... - chamou, numa imitação perfeita, retorcida e sussurrada da voz do Mickey - quer ver minha cabeça saindo?

Começou a puxar a própria cabeça, com seus dedos desajeitados, num movimento similar a de um homem ferido tentando se livrar dos dentes do predador...

Enquanto remexia o pescoço... tanto sangue saindo..

Um líquido grosso, amarelo e fedorento...

Me virei assim que ouvi o ruído nauseante de tecido e pele sendo rasgados... Só quis fugir. Acima da porta, do lado de fora do quarto, vi a mensagem final, marcada em metal com ossos... ou unhas...

ABANDONADO POR DEUS

Nunca descarreguei as fotos da câmera. Nunca escrevi um blog sobre. Depois de correr daquele lugar, pela minha sanidade, se não pela minha própria vida, soube por que a Disney não queria que ninguém soubesse...

Não queriam ninguém como eu entrando...

Não queriam que aquilo saísse... 

Créditos:medo b

Chaves From Hell

Segundo o historiador Jean Delumeau, no livro “Entrevistas Sobre o Fim dos Tempos”, o catolicismo tradicional, apoiando-se em Santo Agostinho, apregoava a "existência de um lugar de sofrimento eterno para aqueles que tiverem praticado um mal considerável nessa vida e dele jamais se tenha arrependido”. Essa noção, um tanto incongruente com a imagem de um
Deus misericordioso, não prosperou fora do imaginário po­pular, sendo substituída pela so­lução do Purgatório, desenvolvida no século II, sobretudo, por Orígenas. Nin­guém mais estaria condenado para sempre, embora, excetuando-se os santos, todos tivessem que passar por um período variável de purificação, com a garantia da salvação ao final.
Santo Irineu discordava. Para ele, “os pecadores confirmados, obstinados, se apartaram de Deus, também se apartaram da vida”.
Portanto, após o julgamento final, os condenados seriam simplesmente apagados da existência.
A polêmica continuou pelos séculos dos séculos, com novos debatedores:
Tomás de Aquino, Lutero, Joaquim de Fiore. Na literatura, Dante e Milton criaram visões poderosas do inferno. O trio de condenados de Sartre, os cenobitas sadomasoquistas deClive Barker e os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras.
Sim, Roberto Bolaños. Não, não se trata do falecido ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953–2003), autor do calhamaço “2666”. O Bolaños com S é um artista infinitamente superior. Refiro-me ao ator, escritor e diretor mexicano Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de Chespirito, ou “Pequeno Shakespeare” à mexicana. Ele é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”. Se, conforme ensinou Baudelaire, “a maior artimanha do demônio é convencer-nos de que ele não existe”, podemos concluir que esse mesmo demônio não iria apresentar seus domínios por meio de estereótipos: escuridão, chamas, tridentes,  lava. Em “Chaves”, verdadeiramente, “o inferno são os outros”.
Bolaños encheu sua criação de sinais que devem ser decodificados para  que se revele seu verdadeiro sentido de auto moralizante. O primeiro e mais importante é o título.
Originalmente, o seriado chama-se “El Chavo Del Ocho”, ou traduzindo do espanhol: “O Moleque do Oito”. Ninguém sabe o verdadeiro nome do protagonista, que nunca foi pronunciado. Cha­mam-no apenas de “Moleque”. O nome próprio Chaves é uma adaptação brasileira, uma corruptela da palavra “chavo”. É certo que um “chavo”, ou “moleque”, é quem faz molecagens; quem subverte a ordem do que seria moral e socialmente aceito como correto. Em livre interpretação, o “moleque” é um pecador. Portanto, o seriado trata de pecados. Não de pecados mortais, pois do contrário dificilmente seus personagens gerariam simpatia, mas, com certeza, de pecados capitais.
Ao contrário do que muitos acreditam, o protagonista não mora em um barril, mas na casa número 8. Sendo órfão e morador de rua, foi recolhido por uma idosa, que jamais foi mostrada; e que talvez não exista. Se existir é a morte materializada, pois habita o 8. Basta deitar o numeral 8 que obtemos o símbolo do infinito. A morte é infinita, pois não há vida antes da vida e após a vida volta-se a condição anterior. A vida pode ser medida pelo tempo, o antes e o depois é, por definição, infinito. O nada infinito, a graça infinita ou a purgação infinita.
Essa vila do “8” nada mais é do que um pedaço do Inferno, especialmente preparado para receber seus hospedes, mortos e condenados no julgamento final. Uma variação cômica de “Entre Quatros Paredes”, onde duas mulheres e um homem (além de um mordomo… mas o comunista Sartre não considerou o representante da classe proletária um personagem pleno) são obrigados a se suportarem mutuamente pela eternidade, num ciclo infindável de acusações e violência. Não é difícil imaginar a cena:
Chiquinha chuta a canela de Quico e faz seu pai pensar que o menino foi o agressor, enervado Seu Madruga belisca Quico, que chama Dona Florinda, que acerta um tapa no vizinho gentalha, que descarrega a raiva no Moleque, que atinge o Seu Barriga quando ele chega para cobrar o aluguel. Enquanto isso, o professor Girafales, queimando de desejo, bebe café, com um buquê de rosas no colo, sem desconfiar a causa, motivo, razão ou circunstância de tanta repetição.
O cenário é um labirinto rizomático, sem centro, começo nem fim. Saindo da vila caem em uma rua estreita que leva a um pequeno parque, um  restaurante e uma apertada sala de aula.
As variações, como Acapulco, são exceções que confirmam a regra. O universo dos personagens se resume a esse espaço claustrofóbico, onde um ambiente leva a outro que leva a outro que leva a outro, indefinidamente.
Os pecados que cometeram em vida transparecem em suas características, medos e frustrações. Chaves, o Moleque, sempre faminto, cometia o pecado da gula. Glutão inveterado, sua preferência por sanduiche de presunto indica desprezo pelas leis de Deus, que proibiu o consumo de porco, esse animal sujo e de pé fendido. Inimigo de qualquer autoridade moral, apelidou seu professor de “Mestre Linguiça", outra referência a malfadada iguaria suína.
Seu Madruga, que têm muito trabalho para continuar sem trabalhar, cometia o pecado da preguiça. Exigem redobrados esforços suas estratégias de fuga, para não pagar os indefectíveis 14 meses de aluguel. Que nunca se tornam 15 meses, denotando que a passagem do tempo está suspensa. Não é necessário lembrar que 7 + 7 é igual a 14 e que, na tradição crística, 70 x 07 simboliza o infinito. Da mesma forma que o 8, o símbolo de adição deitado torna-se o de multiplicação. Deus mora nos detalhes.
A ganância de Seu Barriga é óbvia. Quem mais cobraria o aluguel mensal praticamente todos os dias? Os golpes que o Moleque lhe aplica sempre que chega a vila faz parte de sua punição.
O fato de possuir como veículo uma Brasília amarela liga-o imediatamente ao país Brasil,  indicando que em vida deve ter se envolvido em escândalos de corrupção. Terry Gilliam não escolhe títulos ao acaso.
O pequeno marinheiro Quico, o menino mais rico da vila, é movido pela inveja. Sempre que vê um de seus pobres vizinhos se divertindo com um surrado brinquedo, cobiça aquela alegria simplória e vai buscar um dos seus, sempre maior e melhor, mas que nunca lhe dá satisfação.
O brinquedo do outro, mesmo sendo obviamente inferior, sempre lhe parece mais interessante. Um círculo vicioso de inveja, jamais saciada.
Chiquinha é marcada pela personalidade intolerante, raivosa. Imitando o Pateta, usava o automóvel como uma arma potencializadora de sua ira. Morrendo em uma briga de trânsito, na vila, tenta fazer o mesmo com o triciclo. Não foram poucas as vezes que atropelou pés e brinquedos. Mas a musa que canta a ira do poderoso Aquiles não se ocupa da ira insignificante de Francisquinha. Sendo a menor e fisicamente mais fraca da vila, só lhe resta chorar, chorar e chorar.
Dona Florinda e o Pro­fessor Girafales foram libertinos do porte do Marquês de Sade e Messalina (ou os próprios). Mestres na arte da luxúria, acabaram condenados a eternidade de abstinência sexual. Frigidae impotente, a mente almeja, mas o corpo não acompanha. Consomem infindáveis xícaras de café que, com propriedades estimulantes, alimentam ainda mais o fogo que não podem debelar. O professor Girafales fuma em sala de aula não porque “El Chavo Del Ocho” foi gravado antes da praga politicamente correta, mas devido ao fato dele ser portador do célebre cacoete pós-coito de acender um cigarro, fazer um aro de fumaça no ar e perguntar “foi bom para você?". Incapaz de cumprir a primeira parte do ritual erótico, involuntariamente reproduz a segunda. Não por acaso, a trilha sonoro de seus encontros é a mesma de “… E o Vento Levou”. A frase final do filme é "amanhã será outro dia”. Na vila, sempre haverá outro dia e outra xícara de café.
Dona Clotilde, a bruxa do 71, padecia de extrema vaidade. O gênio de Bolaños teve a sutileza de convidar uma ex-miss, a espanhola Angelines Fernández, para interpretar a personagem. Novamente o signo de uma condenação eterna aparece: 71 nada mais é do que 7+1=8. O animal de estimação de Dona Clotilde, significativamente chamado de Satanás, chama atenção para outro elemento importante. A presença de diversos demônios errantes na vila. Trata-se de uma besta transmorfa. Em alguns episódios satanás é um gato, em outros um cão. Diferente do paradoxo do  coelho-pato de Jastrow, Wittgenstein e Thomas Kuhn, que servia ao desenvolvimento da razão, o gato-cão é uma representação do misticismo, o cão em “pessoa”.
Em 1589 o teólogo Peter Binsfeld, no livro “Binsfeld’s Classification of Demons”, estabeleceu que cada um dos sete pecados capitais possui um patrono infernal. Sintoma­tica­mente, Lúcifer, nome pelo qual muitos chamam satanás, gera a vaidade. Os outros são Asmodeu que gera a luxúria, Belzebu a gula, Mammon a ganância, Belphegor a preguiça, Azazel a ira e Leviatã a inveja. Não nos enganemos: eles rondam a vila. Aparecem circunstancialmente, para promover desordem, dor e tentação.
Se o gato-cão Lúcifer/Satanás ajuda a difundir o boato de que Dona Clotilde é uma bruxa, me parece óbvio que a bela menina Paty e sua tia Glória são Belzebu e Belphegor metamorfoseados em súcubos, demônio  sexuais femininos, prontos para atiçar outros apetites no Moleque e tirar Seu Madruga de seu estado de letargia. Por sua vez, o galã de novelas Hector Bonilla, que visitou a vila, nada mais é do que Asmodeu na forma de um íncubo, demônio sexual masculino, com a missão de tumultuar a relação do casal de libertinos castrados. Nhonho é Mammon, instigando o pai avaro a gastar. Popis é Azazel, esmerando-se em despertar a ira de Chiquinha com sua futilidade enervante. Godinez é Leviatã atiçando a inveja de Quico, com suas respostas tão certeiras quanto involuntárias ao Mestre Linguiça. Figuras de pouca relevância como Dona Neves, Seu Furtado, os jogadores de ioiô, os alunos anônimos na escola, os clientes do restaurante, o pessoal do parque e do festival da boa vizinhança, além de outros coadjuvantes, são entidades demoníacas menores, com a função de criar a ilusão de normalidade.
De fato, os frequentadores da vila parecem inscientes de sua condição. Os adultos por serem alto-centrados. As crianças por estarem duplamente amaldiçoados, regredidos a condição infantil, talvez como espelho da imaturidade emocional que os levaram a conduta pecadora.
Enquanto muitas pessoas sonham em possuir a experiência da maturidade em um corpo jovem, eles mantiveram o corpo que possuíam na hora da morte, mas quase sem nenhuma experiência. Essas são as sutilezas da burocracia infernal.
O carteiro Jaiminho, em sua função de portador de mensagens, é o único representante do lado de cá. Um médium que tenta fazer contato com outra dimensão. Seu constante estado de fadiga é resultado do esforço sobre-humano necessário para cruzar as dimensões. Prova disso é a descrição que Jaiminho dá de sua terra natal, Tangamandápio. A despeito de existir de fato, sendo localizada a noroeste do Estado mexicano de Micho­acán, trata-se de uma alegoria. Se­gundo o carteiro, tudo em Tangamandápio é colossal. Seria maior do que Nova York e teria uma população de muitos milhões de habitantes. O que poderia ser tão grande?
Obviamente, ela não se refere a uma única localidade isolada, mas a todo o planeta; a  terra dos vivos. As cartas que transporta são psicografias e a bicicleta que nunca larga, apesar de não saber andar, nada mais é do que um totem, ao estilo de “A Origem”, necessário para que possa voltar para realidade.
Em “El Chavo Del Ocho”, Bolanõs, o Camus asteca, criou sua própria versão do mito de Sísifo. O Moleque e companhia estão condenados a empurrar inutilmente por uma ladeira íngreme essa imensa pedra chamada cotidiano, que sempre rola de volta, obrigando-os ao tormento do eterno retorno. A pedra de Quico é quadrada, não rola, desliza. É cômico, apesar de trágico.

O Diário

Olá! Eu me chamo Eduarda Fontinelli. Me senti na necessidade de divulgar os textos que meu filho Antônio escreveu em seu Diário, para ver se consigo colher informações sobre o que aconteceu a ele. O meu menino só tinha dezesseis anos, quando morreu, dia oito de janeiro deste ano. O crime ainda não foi esclarecido pela polícia, que fez pouco caso do que havia acontecido.
Eu encontrei meu filho morto, e parcialmente devorado em seu quarto, toda a casa estava banhada em sangue, porém a perícia apontou que o sangue não era dele. O texto a baixo, estava escrito em seu diário, que foi encontrado próximo ao corpo”.
Dia sete de janeiro: Olá! Diário. Hoje acordei, meio sem vontade de ir para a escola, então fingi que estava doente. Preocupada, com minha saúde, minha mãe me deixou ficar em casa. Bem! Mas, eu não fiquei necessariamente em casa. Fui para a casa do meu amigo Victor, que também não tinha ido para a escola. Nossa! Foi muito bom, nós passamos o dia todo jogando videogame, até que em uma das nossas batalhas no Tekken 6, ele me falou uma coisa.
-Antônio, eu imprimi um conto de terror muito legal, ele se chama O orfanato, eu só li a primeira parte, mas hoje eu vou ler a segunda e amanhã eu passo para você ler.
-Tá certo, mas não mude de assunto, só porque está levando uma surra. –Nos dois rimos.
Algumas horas depois me despedi do Victor e fui para minha casa. Minha mãe brigou muito comigo, porque segundo ela eu estava doente somente para ir para a escola, mas para jogar videogame, eu estava bonzinho. Não posso negar a verdade por trás disso. Fui para meu quarto e lá fiquei vendo TV até pegar no sono.
Dia oito de Janeiro: Acordei muito disposto hoje, me arrumei, tomei café e como faço todos os dias, passei na casa do Victor para ir para a escola junto com ele. Quando me aproximei, logo avistei, uma ambulância saindo de sua casa. Sua mãe estava chorando, debruçada, sobre um corpo, coberto por um lençol brancoem cima de uma maca. Corri até lá, porém, quando cheguei perto, fui contido por alguns policiais que estavam ali perto.
–O que aconteceu. –Perguntei a eles. –Me digam, o que aconteceu…
O pai do Victor se aproximou.
–Deixem ele passar. –Ele disse.
–O que aconteceu, senhor Carlos?
Ele colocou sua mão sobre meu ombro e com lágrimas nos olhos disse:
–O Victor morreu!
–O que? – As lágrimas começaram a descer involuntariamente dos meus olhos. –Mais como? Ontem mesmo, nós estávamos brincando…
–Ele foi dormir tarde porque estava lendo alguma coisa que imprimiu na Internet. Eu subi, e disse que quando terminasse ele fosse dormir, ele me respondeu, dizendo que já estava quase terminando de ler. Quando acordei, e fui acordá-lo, para ir para a escola, ele já estava morto em sua cama. Parece que o coração dele parou durante à noite.
Eu corri até a maca. Elisa, a mãe do Victor, me interceptou.
-Não vá até lá. –Ela dizia, enquanto o carro do IML saia com o corpo dele. –Venha, vamos entrar. –Elisa estava aos prantos, enquanto dizia. Nós entramos na casa.
–O que ele estava lendo? –Perguntei curioso.
–Ele estava lendo isso.
O pai do Victor, me entregou várias folhas, grampeadas.
–Posso ficar? –Perguntei.
–Pode sim. –Ele respondeu.
Sai da casa do Victor, chorando e com as folhas na mão. Ao chegar em casa, minha mãe me interrogou sobre o porquê de eu não ter ido para a escola. Ao saber o motivo, ela logo me deu razão. E o pior e que desta vez não era mentira. Subi para o meu quarto e comecei a ler o que o Victor estava lendo, na tentativa de descobrir alguma coisa.
O texto era enorme, e dividido em duas partes, mas, eu o li por inteiro. A coisa que me chamou mais a atenção, foi o final do texto, que dizia que quem tivesse lido estava condenado ao inferno. “Que bobagem” –Pensei. Deixei o texto em cima da minha mesa de centro e fui me deitar, chorei até pegar no sono, mas, mesmo com a enorme dor que sentia, dormi a tarde inteira. Durante todo o meu sono, somente a imagem do Victor me vinha a cabeça, e aos meus sonhos, até que um toque de uma mão em meu rosto me despertou.
“Esta parte, segundo a perícia, foi escrita de dentro do guarda roupas dele, estava toda borrada, e com uma marca de sangue na folha, no entanto, estava legível".
Eu não tenho tempo para escrever, com detalhes tudo que aconteceu, mas, vou procurar ser o mais detalhista possível para descrever o que está acontecendo comigo. Não sei o que tem lá fora, porém, vou procurar manter a calma para escrever.       
Depois do toque da mão em meu rosto, eu acordei assustado, eu estava suado, como se tivesse acabado de jogar bola. Procurei o que tinha tocado em meu rosto, más não encontrei nada. Olhei pela janela do meu quarto. “Nossa! Já é noite”. –Eu disse. Sai do meu quarto e desci as escadas. "Mãe" –Eu gritei. Porém estava sozinho em casa. Ela sempre sai à noite com meu pai. Me sentei no sofá e liguei a TV. Fiquei lá por algum tempo, assistindo, o Programa do Ratinho.
As luzes da sala começaram a piscar, a TV saiu do ar de repente e todas as torneiras da casa foram abertas. “Mais o que é isso?”. –Eu disse assustado. Me virei para a porta da rua, e lá estava, aquela figura horrenda. Era o Victor, atrás de mim, me observando perto da porta. Ele babava como um cão raivoso, estava despido, e com um corte profundo em seu peito, que parecia ter sido feito por um bisturi ou coisa assim. O susto que levei, foi além do que meu coração poderia aguentar, eu andei para trás, até derrubar a TV no chão. Victor começou a andar até mim.
–Victor sou eu. –Eu gritei assustado.
Ele começou a fazer um som, que parecia ser feito, puxando o ar de fora para dentro.
–Victor…
Ele vomitou sangue no chão, sujando todo o tapete da sala. Eu corri desesperado até a cozinha e peguei uma faca, quando aquela sensação horrível de estar sendo observado, tomou conta de mim. Olhei para a janela da porta da cozinha, e vi um rosto de criança olhando para mim, pelo lado de fora. Sombras começaram a surgir de todos os lados da cozinha, eu podia vê-las, pelas janelas da frente. Eram homens, eles estavam andando lá fora e gritando meu nome.
Comecei a gritar por socorro, mas nada aconteceu. Olhei novamente para a porta da cozinha, a criança não estava mais na janela, ela já estava dentro da minha casa, ao meu lado, pronta para me morder. Corri novamente até a sala, mas no caminho, um braço saiu debaixo da mesa e agarrou minha perna, derrubando-me no chão. Olhei para quem me derrubou.
Era um homem de mais ou menos trinta anos, ele estava partido pela metade, seus intestinos estavam para fora, caídos no chão, e ele vomitava constantemente, uma coisa marrom, gosmenta, que estava banhando o chão e empregando o lugar com seu odor fétido. Me levantei rápido e fui para a sala. Ao chegar, Victor estava lá. Ele estava acompanhado de duas crianças gêmeas, que sorriram sarcasticamente ao mesmo tempo quando me viram.
Elas estavam usando roupas antigas, as duas estavam com os rostos sujos de sangue, que ainda escorria pelo seu corpo, e embebia o carpete. Meu coração disparou, com batidas estrondosas em meu peito, quando vi aquilo. O medo me fez subir as escadas, o mais rápido que pude. Me tranquei em meu quarto e entrei dentro do meu guarda roupas. “Preciso avisar a alguém o que está acontecendo aqui”. –Falei baixinho.
Olhei para o lado e vi meu Diário, jogado ao lado de algumas roupas, então comecei a escrever, o que tinha feito hoje. Escrevi em paz por um tempo, mas, vi alguns movimentos lá fora. Alguma coisa estava dentro do meu quarto. Por entre as frestas do guarda roupa, eu pude ver uma sombra. Era de uma pessoa, andando para lá e para cá, mas a sombra desapareceu, repentinamente. Eu estou calado, não estou fazendo nenhum barulho. Alg…
Essa foi a última coisa que ele escreveu antes de ser encontrado morto, por mim e pelo pai dele. Eu não sei o que aconteceu depois disso, mas o que fizeram com meu filho foi brutal, foi desumano e cruel. O texto, que o pai do Victor havia entregue a ele, desapareceu, mas na fuga, a pessoa que matou meu filho deixou uma folha cair no chão, no entanto o sangue seco grudado na folha, a tornou ilegível.
Não sei se estou ficando louca, mas desde o dia em que meu filho se foi, coisas estranhas estão acontecendo em minha casa. Me sinto observada, vultos espreitam no escuro, torneiras se abrem sem ninguém estar lá para abri-las, eu escuto pegadas subindo as escadas, e pessoas sussurrando em meus ouvidos, me fazendo acordar durante a noite assustada. Tenho certeza, que alguém está lá...